OS NOVOS MERCADOS DE TRABALHO:
A EDUCAÇÃO E A REQUALIFICÃO PROFISSIONAL
Vivemos em uma época de imensas transformações. Mudanças tecnológicas
acontecem em todos os setores produtivos. A automação, a informática
e a robótica provocam mudanças na organização e na gestão da produção.
Mudam também as relações entre empresas e as relações de trabalho no
interior delas. Surgem consórcios empresariais e novas relações baseadas
na terceirização.
Mudam, consequentemente, até mesmo as formas e o conteúdo
da ação sindical. Essas transformações afetam profundamente os trabalhadores.
A automação e os novos processos- eliminam postos de trabalho, agravando
o desemprego. As exigências de melhor qualificação profissional e nível
de ensino tornam o trabalho inacessível para um grande contingente de
pessoas que não se preparam para tais exigências. Resta a estes trabalhadores
quando resta - aceitar um emprego precário , muitas vezes no
setor informal da economia.
Nesse contexto, aumentam a importância da formação
profissional e da escolaridade básica, como fatores imprescindíveis
para a "empregabilidade". A qualificação do trabalhador passa
então a ser condição fundamental para se fazer frente ás transformações
decorrentes do processo de globalização dos mercados. É preciso garantir
melhor qualidade dos produtos e aumentar a produtividade, para que os
preços possam baixar e competir no mercado internacional globalizado.
Mais do que nunca, o sistema produtivo e o educacional precisam estar
integrados. A formação profissional e a escola são apresentadas como
respostas aos problemas de competitividade das empresas, da exclusão
social e da geração de empregos. Este ainda é um tema novo para o movimento
sindical brasileiro, que, no seu conjunto, sempre considerou a formação
profissional como atribuição do Estado e do patronato. Só recentemente
temos assumido que a discussão e formulação de propostas nesta área
também é responsabilidade nossa. Embora as experiências do movimento
sindical como um todo ainda sejam reduzidas, muitos sindicatos conseguiram
acumular experiências bem sucedidas de formação profissional, ou seja,
levando consideração a relação entre educação básica e educação profissional.
Alguns grandes sindicatos conseguiram ser bem sucedidos montando suas
próprias escolas. Outros fizeram parcerias saudáveis com instituições
educacionais. Os sindicatos mais do que ninguém Têm condições de arregimentar
os trabalhadores a serem beneficiados com programas educacionais, assim
como definir, tanto empiricamente quanto por intermedio de pesquisas,
os setores que podem absorvê-los, depois dos programas de capacitação
e requalificação.
Os trabalhadores brasileiros possuem em média menos
de quatro anos de escolaridade; 17 milhões são analfabetos; a qualidade
da escola pública básica é precária, deficiente e inadequada á realidade
que vivemos. O modelo oficial de ensino, assim como o chamado ensino
profissionalizante, oferecido pelo patronato com recursos públicos,
está posto em cheque. Vivemos, de qualquer forma, um momento bastante
criativo: dentro do próprio governo, iniciativas da maior importância
como o Plano Nacional de Formação Profissional, no âmbito do
ministério do Trabalho, com parcerias na sociedade civil- buscar saídas
emergências e de longo prazo para os problemas atuais. Uma coisa não
se discute mais: o trabalhador do mundo de hoje precisa estar qualificado,
e bem qualificado, para as exigências da economia globalizada: tem que
atender ás exigências dos novos processos de reestruturação positiva;
precisa exercer plenamente a cidadania, cumprindo com seus deveres e
exigindo o respeito a seus direitos.
No entanto, não há formulas capazes de levar á construção
de modelos corretos para todas as categorias, em todas as regiões geográficas
do país e para todos os trabalhadores. Devemos buscar, portanto, vários
modelos, cada qual adequado a cada situação. É importante compreender
que a formação profissional ( assim como todo o sistema educativo) ,
está diretamente relacionada com determinada realidade social, econômica
e política e não pode ser pensada fora deste contexto histórico.
Já que a formação profissional não pode ser compreendida
fora deste contexto, devemos pensar qual formação profissional
vamos defender ( ou vamos tentar construir ) nesta era de globalização,
em que o grande desafio mundial é manter o trabalho como fator de integração
social, atender ás exigências econômicas de competitividade sem prejudicar
a geração de empregos e permitir a igualdade de oportunidades, evitando
a exclusão social.
Acreditamos que alguns pontos são básicos para que
possamos enfrentar todas estas questões:
A Formação Profissional é um direito de todos os trabalhadores,
fator de enriquecimento pessoal e instrumento básico para o exercício
da cidadania, devendo ser sempre complementar á escolaridade formal,
e nunca substitutiva desta.
Dentro desta concepção, a Formação Profissional tende
a ser cada vez mais Educação Profissional, integrando-se
portanto, ao sistema educacional, tendo como premissa a escola pública,
gratuita e de qualidade, de forma e permitir ao trabalhador elevar
constantemente se nível de escolaridade.
A formação profissional de nível técnico deve estar integrada a
uma proposta educacional que proporcione uma formação politécnica
integral e abrangente, que contemple os requisitos de cidadania, valorizando
a qualificação de nível técnico sejam otimizado e os profissionais
oriundos desta formação sejam absorvidos e valorizados pelo mercado
de trabalho.
É necessária a elaboração, implantação e execução de uma política
pública de educação profissional que permita atender ás necessidades
de formação para o ingresso, a permanência e o reingresso dos trabalhadores
no mercado de trabalho: integrada a uma política educacional e de
emprego vinculadas a políticas regionais de desenvolvimento.
A formulação de políticas passa pelo conhecimento de realidade a
ser atingida e modificada. Logo devemos reivindicar que os órgãos
públicos aperfeiçoem seu sistema de estatísticas sobre o mercado de
trabalho e a educação profissional e divulguem dados que permitam
o conhecimento das tendências do mercado de trabalho e do perfil dos
trabalhadores absorvidos e excluídos deste mercado. Só isso possibilitará
a construção de programas que atendam ás exigências desta tendências
e não continuem qualificando os trabalhadores para processos produtivos
em extinção.
A educação profissional é um dos fatores que integram o mundo do
trabalho e está diretamente ligada ás relações de trabalho. Deve ser,
portanto, um dos elementos do processo de negociação entre trabalhadores
e empregadores. Devemos incentivar acordos bipartites ( entre trabalhadores
e empregadores ) e Tripartites, que permitam caminhar no sentido de
construir programas de qualificação profissional dirigidos a trabalhadores
desempregados ou não, jovens e adultos, deficientes ou não, e que
contemplem as questões de gênero, garantindo a igualdade de oportunidades,
uma vez que reconhecemos que tal igualdade possa, sobretudo, pela
igualdade no acesso á formação.
Devemos desenvolver uma política de qualificação das lideranças
e assessorias sindicais para a negociação da formação profissional,
tanto no nível das categorias ou dos setores, de forma a garantir,
desde os locais de trabalho, negociações sobre o nível de escolaridade
daqueles trabalhadores, os princípios da formação continua e os programas
de qualificação e requalificação profissional específicos para cada
categoria.
Devemos incentivar a negociação continua como parte do cotidiano
das lideranças sindicais, implementando uma política de qualificação
das lideranças para entender este processo, negociar os programas
de restruturação produtiva das empresas e construir programas de formação
continua negociados.
A formulação de políticas de formação profissional, a operacionalização
e a gestão destas políticas devem ser exercidas de forma participativa
e paritária pelos diferentes agentes sociais envolvidos, procurando
sempre atingir, também , o contingente de trabalhadores que estão
em situação de exclusão social, de forma a aumentar as possibilidades
de igualdade social deste contingente de trabalhadores.
Os fundos públicos destinados a financiar políticas de formação
profissional devem ser gerenciados com participação paritária da representação
dos trabalhadores.
Reconhecemos a importância do Sistema "S" mantido
com recolhimento compulsório no desenvolvimento da formação
profissional em nosso país, mas defendemos que a realidade atual exige
um processo de negociação do modelo de gestão deste sistema, de forma
a incluir em tal gestão a participação paritária dos trabalhadores.
As nossas propostas para a formulação de políticas públicas de formação
profissional incluem, também, a execução de programas de emergências
de formação que atendam ás diferentes realidades regionais e setoriais,
sempre incluindo conteúdo de formação para cidadania. Entretando,
pressupõem, sobretudo, a operacionalização de programas de qualificação
e requalificação profissional modulares e flexíveis, que possam contribuir
para elevar o nível da escolaridade e da qualificação profissional
dos trabalhadores.
Os programas de formação profissional vinculados a políticas de
emprego, através de projetos emergências ou não, que foram financiados
com recursos de fundos sociais, devem ter seus critérios e metas definidos
através das Comissões Estaduais e Municipais Tripartites de Emprego,
baseadas em diagnósticos e analises das respectivas realidades regionais.
A Força Sindical deve construir canais ágeis e permanentes com seus
representantes nesta comissões, garantindo a esta representação efetiva
integração com políticas da central, pois cabe a ela a negociação
dos critérios e metas a serem adotados neste projeto.
Os sindicatos da Força Sindical devem ser estimulados a incluir
nas pautas de reivindicação e nas campanhas salariais propostas sobre
formação profissional e escolaridade fundamenta. Os dirigentes devem
ser portanto capacitados para esta discussão.
Devemos estabelecer metas factíveis, prazos curtos, para a elevação
do nível médio de escolaridade, seja ao nível das empresas, do setor
e nacional neste caso, envolvendo todos os setores organizados
da sociedade.
Entre as metas a serem definidas, propomos desencadear
uma grande campanha envolvendo diversos segmentos da sociedade para
nos próximos quatro anos, atingir os seguintes objetivo:
Elevar o nível médio de escolaridade dos trabalhadores para seis
anos.
Diminuir em 25% a taxa de analfabetismo nos próximos 5 anos, o que
significa alfabetizar cerca de um milhão de trabalhadores por ano.
Estimular e incentivar cada vez mais o sistema de parcerias para
o avanço conceitual dos planos de qualificação profissional de acordo
com as propostas que devem ser cada mais aprimoradas, da Secretaria
de Formação Profissional SEFOR do Ministério do Trabalho.
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