Temas e subtemas estarão organizados de modo a permitir, ao
final de cada reunião, recomendações sobre políticas públicas e não sobre
pesquisa", observa Chaimovich. "Políticas para criar empregos
e gerar renda" serão abordadas na mesa 2. "São assuntos a respeito
dos quais a USP poderá opinar a partir de pesquisas já realizadas".
"O diálogo social e os direitos dos trabalhadores", tema
da mesa 3, "é essencial quando acoplado aos anteriores", segundo
Chaimovich.
"O evento vai expor um país que precisa saber onde estão os empregos,
formular políticas para sua criação e gerar renda", analisa.
A coordenação do encontro está a cargo do professor Hélio Zylberstajn,
pesquisador da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) da
USP, que participa de duas das três mesas.
Para Zylberstajn, "nada mais óbvio do que a USP dizer o que pensa
para a comunidade externa, pois, aqui, muitos buscam e pesquisam soluções
para o desemprego". Sessenta e cinco trabalhos foram elaborados
por docentes pesquisadores, graduandos e pós-graduandos dos campi da
capital, Ribeirão Preto, Bauru e Piracicaba, formando um quadro heterogêneo
e bem abrangente. Segundo o professor, o desemprego não será resolvido
através de solução única, pois está envolvido em dois grandes grupos
de políticas: macro e microeconômico.
Do ponto de vista macroeconômico, para gerar empregos a economia precisa
crescer, reduzindo taxas de juros e atraindo investimentos. "Tudo
isso é óbvio. Mas o emprego não está garantido só pelo aumento da atividade
econômica. É preciso que o mercado seja mais eficiente e justo, criando
oportunidades para todos. Essa é a grande mensagem do encontro",
sintetiza.
Mercado eficiente
Os trabalhos que a USP recebeu, segundo Zylberstajn, não se concentram
em soluções óbvias.
"Muitos pesquisadores estão pensando o problema sob a ótica da
microeconomia, no trabalho do menor, da mulher, dos negros, na formalidade
e na informalidade, na negociação entre patrões e empregados; em novas
formas de gestão e suas implicações para o emprego", acrescenta.
Mercado eficiente se baseia em negociação constante. É o que ocorre
com a participação dos trabalhadores nos lucros ou resultados das empresas
(PLR), pesquisada por Zylberstajn há algum tempo. Serão apresentados
na mesa 2 "Cinco anos de regulamentação da PLR : um balanço"
e "A PLR já é lei".
Trata-se de acordos firmados entre patrões e empregados que geram ganhos
"extras" aos trabalhadores, depois de atingidas determinadas
metas. "A participação nos lucros ou resultados das empresas é
uma maneira de tornar o mercado mais eficiente, pois cria um novo tipo
de remuneração", explica.
Tais objetivos podem estar relacionados à melhoria da qualidade do
produto, redução do número de faltas, acidentes de trabalho, aumento
da produtividade ou da participação da empresa no mercado. Quando as
metas se referem ao lucro são contábeis (podem ser contados ou mensurados);
quando se referem a resultados, não necessariamente são contadas.
A PLR não pode ser implementada de modo unilateral pela empresa. Deve
sempre resultar de negociação entre as partes, com representantes sindicais;
o pagamento é "barato" pois sobre ele não incidem encargos
trabalhistas e previdenciários, mas sim Imposto de Renda que ocorre
uma vez por semestre. "A periodicidade é necessária para impedir
o empresário de contratar por um salário mínimo e complementar com a
participação", alega.
"Os cinco anos de vigência da PLR têm demonstrado que programas
fáceis de serem entendidos e executados por trabalhadores e confortáveis
para a empresa - aqueles que não obrigam a abrir os livros - têm mais
probabilidade de sucesso", analisa o professor Zylberstajn.
A PLR nasceu da Medida Provisória 794, de dezembro de 1994, e parte
dela foi transformada na Lei 9.711, no final de 1998. A partir de então
ficou determinado que a PLR não complementa a remuneração devida, sobre
ela não incidem encargos previdenciários e tais valores não devem ser
pagos com periodicidade inferior a seis meses. De agora em diante, o
não cumprimento de acordos de PLR poderá sofrer interferência da Justiça
do Trabalho.
A participação nos lucros e resultados inaugura nova era na relação
capital-trabalho. No Brasil, a maioria das organizações não está habituada
a compartilhar o poder, cultura que vem mudando. "As qualidades
da PLR não se limitam a impactos macroeconômicos positivos; ela também
melhora o relacionamento dentro da empresa, levando à estabilidade da
força de trabalho, crescimento da produtividade e, embora não crie empregos,
ajuda a estabilizar o nível de desemprego", emenda Zylberstajn.
Caso seja surpreendida pela recessão, a empresa que aplica a PLR não
precisa demitir, apenas volta à situação anterior. Em tempo de crescimento,
diante de mais produtividade é capaz de criar empregos. "Aos poucos
os empresários estão percebendo que tais programas são investimento
em produtividade e não despesa." os rendimentos são, na maioria,
proporcionais ao salário e valem apenas para os contratados.
O pesquisador da Fipe afirma que vem crescendo a adesão aos programas
de PLR, pois constam da pauta de reivindicação dos sindicatos. Segundo
pesquisa empreendida pela Fipe, em 1997, entre 566 empresas, 52% (294)
contavam com o programa, a maioria delas dos setores químico e metalúrgico.
"Acredito que dezenas de milhares de empresas estão aplicando essa
sistemática", diz ele.
Mediação estratégica
Mais um esforço para conhecer melhor o mercado de trabalho se traduz
pelo Programa Mediar/ Fipe - Informações para a mediação estratégica
entre capital e trabalho, que será apresentado na mesa 2.
Aqui o mercado é dividido por regiões, tamanho das empresas, setor
de atividade. O projeto procura respostas a dados conjunturais e estruturais
da economia, desde janeiro deste ano. Conta com 225 colaboradores, entre
sindicatos patronais e de trabalhadores, que dão cerca de 30 respostas
por mês a questionários divididos entre Série Mensal, que pesquisa assuntos
conjunturais, e Tema do Mês, estruturais.
Há amostra da Fipe, ainda pequena , "exploratória", sobre
isso. São enquetes consideradas ágeis, transmitidas pela Internet (www.fipe.com/mediar),
e originais, pois enfocam assuntos pouco pesquisados, como participação
dos lucros das empresas, contratos de trabalho flexíveis, e jornada
de trabalho, saúde, mecanismos alternativos para solucionar conflitos
trabalhistas etc., que são estruturais.A pesquisa mostra que 100%, das
empresas responderam negativamente à pergunta: "Houve greve?".
Segundo o professor Zylberstajn, "a greve só ocorre quando a empresa
tem poder de barganha com o funcionário e, no momento, tal poder está
praticamente zerado. Se tiver de negociar proteção ao trabalho, por
exemplo, a empresa preferirá demitir", afirma Zvlberstajn.
"Respostas ao questionário que apresentam incompatibilidade são
rejeitadas e o colaborador é convidado a corrigi-las", alerta o
professor. O Tema do Mês discutirá, em maio, "Terceirização".
"Terceirizar é uma forma que a empresa tem de reduzir custos e
concentrar atenção na sua atividade principal", informa.
Negociação contra concessão
O setor produtivo está sendo invadido por avanços tecnológicos que
provocam o aumento da competição no mercado e obrigam a economia a ajustar-se:
"Setores vulneráveis não resistem e quebram. Apenas fazem frente
a tal situação os que incluem tecnologia em seus processos produtivos".
Para ajustar custos, muitas empresas demitem e passam por reestruturações
depois de "enxugar" seus quadros. Para Hélio Zylbertajn, o
impacto da reestruturação tem trazido o crescimento do desemprego nas
grandes indústrias e aumento nas micro e pequenas, além das formas ilegais
e não assalariadas de ocupação.

Os sindicatos negociam com as empresas a permanência dos empregados
nos postos de trabalho, fazendo algumas concessões. A pesquisa sobre
"Reestruturação Produtiva e Negociação Coletiva no Brasil: a era
das concessões?", da Fipe, tema que fará parte da mesa 2, selecionou
11, entre 20 desses casos de negociação entre sindicatos e empresas.
"Onze empresas flexibilizaram a jornada de trabalho, por meio
do banco de horas, aceitando o fim ou a redução drástica das horas extras,
que conferiam aumento substancial aos salários."Pelo banco de horas,
as horas trabalhadas a mais são pagas em folgas, pelos empregadores.
Pode estar havendo redução de um terço da renda de grande parte da população
que trabalha, no Brasil, com a redução das horas extras. Porém, economizando
o pagamento de horas extras, o empresário consegue segurar as demissões.
"A medida é correta, pois permite superar as dificuldades agora.
Quando a empresa começar a crescer e exigir mais produtividade, terá
de acertar aumentos salariais através dos sindicatos", opina Zylberstajn.
"É a hora da negociação no Brasil, que deve intensificar-se cada
vez com menos interferência do Estado. Essas experiências ressaltam
a necessidade de mudança nas relações capital-trabalho", sentencia.
Seguro-desemprego
Dentro de 60 dias, a Fipe deverá divulgar o perfil do beneficiário
do seguro-desemprego no Brasil. A informação é importante pois poderá
resultar em melhor gerência dos recursos previdenciários.
"A partir do conhecimento do perfil demográfico e de qualificação
do beneficiário será possível estimar com maior precisão o custo do
programa", avalia Hélio Zylberstajn.
Além disso, o conhecimento e avaliação do perfil permitem caracterizar
o impacto distributivo sobre a desigualdade de renda, regiões e segmentos
onde é mais pronunciada. "Uma das formas de maximizar o uso desses
recursos é o controle preventivo dos gastos, conhecendo as características
de diversos grupos receptores e a freqüência com que recebem o benefício".
Hoje, o demitido sem justa causa vai direto à Caixa Econômica Federal
e, durante cinco meses, recebe uma espécie de salário, sem que ninguém
fiscalize se ele tentou arranjar emprego ou não.
Em seu trabalho, ao lado de Giácomo Balbinotto Neto, da Federal do
Rio Grande do Sul, "O seguro-desemprego no Brasil e o perfil dos
segurados", uma avaliação do programa entre 1986 e 1998, o professor
Zylberstajn informa que em outros países, como Estados Unidos, o segurado
deve comprovar que procurou mas não encontrou emprego, para receber
ajuda. Não é à toa que a participação desse seguro, em relação ao Produto
Interno Bruto (PIB), é maior aqui do que lá.
O Brasil gasta cerca de 0,45%, enquanto os Estados Unidos gastam cerca
de 0,30% do PIB com o serviço.
Quando cadastrados, os beneficiários deveriam ser identificados quanto
à posição na família, grau de instrução, idade, último salário, número
de dependentes, setor de atividade etc., para caracterizar os com maiores
chances de permanecer desempregados. O trabalho será apresentado na
mesa 3.
Tal tipo de enfoque é utilizado na Inglaterra, por exemplo, onde o
valor do seguro-desemprego se relaciona à situação da família do desempregado.
Na Áustria, Irlanda e Espanha, a duração do seguro-desemprego vincula-se
ao fato de o esposo ou esposa estar também trabalhando. Na Finlândia,
França, Noruega e Suécia, depende de se o beneficiário é casado ou não
e se a esposa ou esposo trabalha. Identificados os que tenham probabilidade
de utilizar todas as parcelas do benefício, eles passam a ter prioridade
no atendimento aos serviços de orientação e colocação.
Desde sua implantação, em 1986, o programa atendeu a 39 milhões de
pessoas, cujos gastos superaram US$ 21 bilhões. O valor do benefício
médio é de 1,54 salário mínimo. A taxa de habilitação ao seguro-desemprego
aumentou de 73%, no início de sua implantação, para 100% entre 1997/98.
Um dado do PNAD (Programa Nacional de Análise de Dados) de 1997, referente
aos trabalhadores desempregados, indica grau de cobertura de 74,75%.
"Conhecer o perfil dos beneficiários torna-se fundamental para
a formulação de políticas de combate ao desemprego, englobando o Sistema
Nacional de Empregos (Sine), transformando-o em política ativa",
orienta Zylberstajn.
Jornal USP 10 a 16/05/99