DOCUMENTO BASE
PROJETO DE CRIAÇÃO DE UM SISTEMA NACIONAL DE CERTIFICAÇÃO
OCUPACIONAL
Raimundo Vossio Brigido
Consultor do Projeto
Projeto CERT/DIV - MTb. - SEFOR/OIT
Novembro 1998
1. A vertente econômica, empresarial e sindical da certificação
ocupacional
No final da década de 60 e começo dos anos 70, uma crise de produtividade
instalou-se nas indústrias ocidentais. O Japão ultrapassava todos os
índices de produtividade e conquistava novos mercados com produtos similares
e até superiores aos ocidentais. Por outro lado, a crise do "sputnik"
já havia abalado a liderança tecnológica dos Estados Unidos e mobilizara
o governo no sentido de tomar medidas urgentes para reverter o cenário
pessimista que se desenhava. Isso resultou numa verdadeira reviravolta
no sistema educacional norte-americano, dirigindo os currículos de ensino
para maior ênfase na matemática e nas ciências e fortalecendo o critério
de QI na medição dos resultados educacionais, critério esse, mais tarde
posto em questão por alguns especialistas.
Na indústria automobilística, a crise foi mais intensa com a crescente
perda de mercados para as indústrias japonesas que obtinham índices
bem maiores de produtividade e qualidade. Em conseqüência, foi criada,
em agosto de 1981, a Comissão Nacional sobre a Excelência em Educação
que publicou um relatório intitulado "Uma Nação em Risco"
(1983). A declaração reconhecia que a primazia americana no comércio,
na indústria, na ciência e na inovação tecnológica estava sendo superada
por seus competidores através do mundo.
Novas formas de produção introduzidas, principalmente na indústria
automobilística japonesa, estavam se mostrando superiores para a produtividade
e a qualidade.
Quais as mudanças introduzidas nas indústrias japonesas que provocaram
a reviravolta na economia mundial?
O sistema de produção japonesa introduzia as seguintes mudanças fundamentais:
1. Os empregados passaram a desempenhar tarefas anteriormente atribuídas
aos supervisores, engenheiros e especialistas, e a ter novas responsabilidades
nos processos de decisão.
2. Foram introduzidos os Círculos de Controle de Qualidade, com equipes
autônomas e semi-autônomas, que assumiam algumas funções da supervisão
direta e substituíam as estruturas formais de gestão.
3. Foi feita a substituição das tradicionais linhas de montagem de
tarefas fragmentadas para a produção em equipes, que trocam tarefas
por rotatividade dos trabalhadores e treinamento cruzado, tornando
a produção mais versátil e exigindo uma capacitação mais diversificada.
4. Foram introduzidas políticas de incentivo à produtividade através
de participação nos lucros, programas de segurança no trabalho, remuneração
de acordo com o desempenho, formação da capacidade de relacionamento
e comunicação.
Segundo um estudo do MIT, esses sistemas, denominados de alta performance,
chegaram a ser duas vezes mais produtivos que os tradicionais da gestão
científica taylorista.
Na década de 80, uma das fábricas de automóveis americanas que apresentavam
índices de produtividade e qualidade mais baixos era a fábrica da General
Motors em Fremont. A fábrica era organizada dentro do modelo taylorista
tradicional, com mais de 80 engenheiros industriais, que estabeleciam
as normas das linhas de montagem com todos os resultados já previamente
estabelecidos e gerentes que faziam o possível para impor as tarefas
descritas para os trabalhadores cumprirem. Isso resultava em baixíssima
produtividade, desmotivação, alcoolismo, abuso de drogas e baixos níveis
de qualidade. O sindicato local era dos mais combativos, tornando-se
famoso, no período de 1963 a 1982, por suas greves históricas que fecharam
as fábricas por quatro vezes. A fábrica, que chegou a ter um máximo
de 6.800 trabalhadores, declinou até cerca de 3.000 operários, quando
acabou fechando as portas.
Em fevereiro de 1983, a General Motors resolveu fazer um joint ventures
com a empresa japonesa Toyota, criando uma nova empresa, a New United
Motor Manufacturing Inc. (NUMMI). Em setembro de 1983, a GM se reuniu
com o Sindicato dos Trabalhadores Automotrizes (UAW) e assinou uma carta
de intenções bipartite. Por parte da empresa, ela reconhecia o sindicato
como o único agente de barganha para a força de trabalho da nova empresa,
especificamente os salários e benefícios e estipulava que a maioria
da força de trabalho deveria ser contratada entre os trabalhadores provenientes
da GM-Fremont. Em troca, o sindicato concordava em apoiar a implementação
do novo sistema de produção e negociar uma novo contrato.
Esse fato inaugurou uma nova estratégia tanto na política sindical
quanto nas relações trabalhistas por parte das empresas. Era a mudança
da estratégia do controle e do conflito para a estratégia
do compromisso e da negociação. Inciou-se, daí por diante,
mudança do paradigma tradicional das relações industriais.
Entretanto, no que se refere à mudança de paradigma da produção, a
coisa não era tão simples como começou a ser difundido, até se tornar
um lugar comum.
Paul A. Adler, estudando as transformações ocorridas na fábrica GM-Toyota,
afirma que o que a empresa adotou foi uma forma inovativa do sistema
taylorista de tempos e movimentos. Isto soou como uma grande surpresa,
porque durante anos se alimentou a crença de que, quando as tarefas
são rotineiras e repetitivas, a eficiência e a qualidade requerem a
estandardização dos procedimentos de trabalho. Por outro lado, altos
níveis de estandardização tira dos trabalhos o seu interesse intrínseco,
reduzindo a motivação e a criatividade. Para Adler, a desmotivação do
trabalho levaria a comportamentos "disfuncionais" do empregado
como absenteísmo, alcoolismo, alto "turn-over", pouca atenção,
greves e até sabotagens. Tal comportamento, por sua vez, geraria reação
autoritária da gerência, aumento dos níveis hierárquicos e, até mesmo,
altos níveis de estandardização. Isso levava à crença de que o taylorismo
provocava, inevitavelmente, o descontentamento dos trabalhadores e a
beligerância dos sindicatos e, em conseqüência, a elevação dos níveis
de excesso burocrático.
Segundo Adler, a segunda parte desse raciocínio é falsa. A estandardização
do trabalho formal desenvolvida pelos engenheiros industriais e imposta
aos trabalhadores é alienante, mas os procedimentos, quando são designados
pelos próprios trabalhadores em um contínuo e bem sucedido esforço de
aumento da produtividade, qualidade, habilidades e entendimento, pode
humanizar mesmo as mais disciplinadas formas de burocracia. A experiência
da New United Motor mostra que a hierarquia pode prover suporte e "expertise"
em vez de uma mera estrutura de comando.
Quais as reais transformações que ocorreram na NUMMI?
A empresa foi organizada em fevereiro de 1984, tomando de empréstimo
o modelo japonês da Toyota, essencialmente o mesmo adotado na empresa
japonesa: linhas de montagem adotando o "just-in-time" e a
qualidade assegurada pela responsabilidade de cada estação de trabalho.
Aplicava o sistema de aperfeiçoamento contínuo (kaisen), e incluía um
programa ativo de sugestões, um refinamento de procedimentos e a designação
de grupos "kaisen" especiais para estudar as sugestões pessoais
ou desenvolver projetos específicos de aperfeiçoamento. Cada posto de
trabalho era cuidadosamente analisado para conseguir a máxima eficiência
e qualidade. Os trabalhadores eram treinados nas funções dos demais
e aos grupos era permitido mudar de uma tarefa para outra.
O modelo começou a ser adotado nas demais indústrias automobilísticas
americanas recebendo a denominação de "Práticas de Trabalho de
Alta Performance".
Embora, para muitos, fosse tranqüilo que houvera uma mudança de paradigma
generalizada, pairava uma dúvida no meio dos especialistas. O próprio
Departamento do Trabalho Americano encomendou um estudo para levantar
o que realmente havia mudado em relação às chamadas "Práticas de
Alta Performance". O estudo concluiu que, embora pareça muito difundido
o interesse pelas novas práticas, ainda há uma certa relutância, tanto
de parte das empresas como dos trabalhadores, em adotar tais práticas
e até dos investidores em incluir a informação na avaliação das companhias.
O trabalho classifica três práticas de trabalho de alta performance:
1. O envolvimento do empregado na tomada de decisão.
2. A compensação ligada à performance da empresa ou do trabalhador.
3. Os programas de treinamento.
No estudo, uma amostra nacional de 700 estabelecimentos privados em
1993, apenas 37% apresentavam a maioria dos trabalhos engajados em duas
ou mais práticas de alta performance.
Paul Osterman, pesquisador do Human Resourses and Management do MIT,
usando dados de 694 estabelecimentos industriais nos Estados Unidos,
examinou a incidência de práticas inovativas (equipes, rotação de trabalho,
círculo de qualidade e gerência de qualidade total) e pesquisou que
variáveis, incluindo práticas de recursos humanos estavam associadas
à adoção da inovação. Ele descobriu que apenas 35% dos estabelecimentos
privados, com 50 empregados ou mais, faziam uso substancial da organização
do trabalho flexível. Osterman afirma que alguns fatores estão associados
à adoção das novas práticas:
1. Estar situado no mercado competitivo internacional;
2. Possuir uma tecnologia que requer altos níveis de qualificação;
3. Estar seguindo uma rodovia estratégica que enfatiza a variedade,
os serviços e a qualidade.
Osterman procurou responder quantas empresas estavam engajadas na reorganização
do trabalho e o que diferenciava as empresas que empreenderam esses
esforços e as demais. Citando a Comissão sobre as Habilidades da Força
de Trabalho Americana, ele demonstra que, em 1990, apenas 5% da força
de trabalho podia ser enquadrada na chamada organização de trabalho
de alta performance.
O trabalho já clássico de Dertouzos, Lester e Solow, "Made in
America" (1989) e o Cuomo Commission Report (1988) já haviam detectado
a introdução da organização do trabalho flexível na economia americana.
Entretanto, concluíram que muitas empresas não foram capazes de se transformar
ou mesmo decidiram não introduzir essas mudanças.
Para Peter Capelli e Nicolai Rogovsky (1997), o novo paradigma sustenta-se
na tese de que, através de uma melhor utilização dos trabalhadores,
atinge-se a qualidade, produtividade e flexibilidade aprimoradas, especialmente,
por meio da transferência de responsabilidade e do poder de decisão
das estruturas administrativas diretamente para os empregados ou respectivas
equipes. Segundo eles, esses modelos exigem substancialmente mais dos
trabalhadores do que os sistemas de trabalho associados à administração
científica taylorista, em que as tarefas são compartimentadas e praticamente
todas as decisões são tomadas pela administração. Mesmo assim, ainda
são menos exigentes do que os sistemas associados aos modelos comportamentais
de reformulação do trabalho experimentado na fábrica Volvo de Udevalla,
onde equipes autônomas de trabalhadores montavam veículos inteiros,
abolindo por completo a linha de montagem.
Para Capelli, os sistemas de produção denominada "enxuta"
parecem mais pesados para os trabalhadores, em termos de estresse e
esforço/ritmo de trabalho, do que os modelos comportamentais, ao mesmo
tempo que lhes concedem bastante menos autonomia, pois a decisão tomada
pelo trabalhador, quando acontece, surge sempre num contexto de grupo
ou de equipe. As tarefas altamente organizadas da produção "enxuta"
limitam a autonomia individual e, mesmo que ofereçam maior variedade
do que nos sistemas de trabalho regidos pela administração científica,
essa autonomia é consideravelmente menor do que a resultante dos modelos
de base comportamental.
Para Capelli, a rápida difusão do modelo de alta performance no setor
automobilístico deve-se principalmente à grande divulgação do modelo
japonês. Concluiu, entretanto, que nos demais setores da produção ainda
não surgiu um modelo equivalente que motive sua drástica transformação.
Nos contextos que não exigem tal flexibilidade na produção, a mudança,
afirma Capelli, não tem qualquer utilidade econômica ou pelo menos ainda
não se evidenciou assim. É o que acontece, por exemplo, com o setor
de transportes, distribuição ou serviços públicos. (Capelli - 1997),
Mesmo tomando em consideração os serviços financeiros, que apresentam
grandes semelhanças com uma linha de montagem, não se evidencia a utilização
nessas operações de práticas de alta performance. Na organização financeira,
o objetivo parece ser o de excluir o maior número possível de empregados
envolvidos no processo através da automação.
Para Kern e Schumann (1989) o novo modelo de produção, oposto ao tipo
taylorista, teria as seguintes dimensões:
* Um novo enfoque do processo de inovação, no qual a adoção de novas
tecnologias deixa de ser um fim em si mesmo e de apresentar-se como
alternativa ao trabalho humano, o que põe fim ao delírio futurista
da fábrica do porvir, operada com simples botões;
* A tecnologia perde completo sentido como variável independente,
em vista de que sua apropriação pela empresa passa por formas particulares
de relações econômicas e sociais, dentro e fora da unidade produtiva.
* Um progressivo resgate da qualificação, dado que a coletiva se
torna cada vez mais importante para a empresa.
* A abertura de novas perspectivas para o trabalho e para os trabalhadores,
na medida em que esse novo conceito parte do reconhecimento da qualificação
e a autonomia do trabalho e abre um maior espaço para a negociação.
(citado em: Elenice Monteiro, "El Rescate de la Calificación"
- Cinterfor/OIT, pg 42, 1996).
De acordo com Freedman, no setor terciário, a experiência clássica
da ampliação de tarefas foi realizada na Detroit Edison Company em seus
serviços de contabilidade.
No departamento de contabilidade, mais de mil empregados deviam preencher,
atualizar e encerrar as fichas de cada cliente. As contas, compostas
em máquinas de cartões perfurados, circulavam de posto em posto, acumulando
progressivamente as informações necessárias: um fluxo análogo ao de
que uma fábrica leva através das esteiras rolantes. Até 1950, os técnicos
estavam convencidos de que, com a fragmentação de tarefas, estavam atingindo
o máximo de rendimentos com o mínimo de gastos.
Pensaram até em introduzir um sistema de esteiras que facilitasse escoar
os documentos entre uma tarefa e outra. Ao levar ao extremo a fragmentação
de tarefas, não se percebeu que eram criados postos inúteis ou mesmo
duplas funções (duplication).
A ampliação de tarefas no setor terciário, segundo Freedman (Trabalho
em Migalhas Georges Friedman, Ed. Perspectiva, São Paulo, 1972),
representou:
1. Uma redução da monotonia de tarefas.
2. Uma determinação do grau de especificação nos lugares em que provoca
a criação de "duplos empregos" e o aumento dos gastos.
3. A utilização, de maneira mais complexa, das capacidades intelectuais
e da personalidade de cada indivíduo.
Após um ano de estudos, a Detroit decidiu unificar as funções similares,
antes separadas, e mecanizar de modo mais completo as operações, efetuando-as
com a ajuda de um equipamento de máquinas eletrônicas.
Como conseqüência, a documentação, antes dispersa em 9 milhões de fichas,
passou a se concentrar em 150 rolos de fita magnética.
No setor de comércio de alimentos tipo "fast-food", entretanto,
a grande revolução do momento, que ocorre em empresas de ponta como
a McDonalds, representa nada mais nada menos que a introdução de elementos
do taylorismo na produção em massa de sanduíches. A grande modernização
na área consiste na introdução da customização e elementos de "just-in-time",
relações interpessoais e novas técnicas de treinamento cruzado.
Uma pesquisa da National Asociation of Manufactures indica, entretanto,
que mesmo em áreas em que o novo sistema de produção não está largamente
disseminado, algumas das novas práticas de trabalho parecem estar se
difundindo. O trabalho em equipe é a prática que parece ser mais responsável
pela grande reestruturação da produção nos Estados Unidos porque elimina
cargos de direção e gera economias imediatas.
No setor serviços, assim como na indústria, a grande mudança que está
ocorrendo, e que representará a onda do próximo século, é a produção
de resposta rápida sob encomenda.
Peter Capelli lança, a respeito, uma pergunta: a longo prazo, a grande
questão é saber se os processos na flexibilização da automação conseguirão
alcançar os sistemas de resposta rápida, o que equivale dizer que o
aumento da responsabilidade no controle da produção atribuída ao trabalhador
nesses sistemas resulta das atuais limitações da maquinária e da tecnologia
de produção. Se os efeitos do novo modelo na indústria de transformação
foram positivos no aumento da competitividade, em outros setores o preço
da mudança pode ser muito custoso. Muitos empresários relutam antes
de mudar porque querem ter certeza de que existe um mercado certo para
o novo produto.
De qualquer maneira, o novo modelo, mesmo sendo uma tendência, ainda
não se generalizou a ponto de se considerar que há o predomínio de um
novo paradigma.
Mesmo assim, o efeito demonstração provocado pela liderança da indústria
automobilística com a introdução do enfoque de alta performance e o
treinamento baseado em competências serviu para a introdução de uma
nova mentalidade nos departamentos de recursos humanos das empresas.
Hoje em dia, mesmo setores em que não ocorreram mudanças tão drásticas,
as empresas estão desenvolvendo programas que levam em conta o desenvolvimento
de competências básicas, de gestão e específicas, assim como a introdução
dos aspectos relacionais, atitudinais e afetivos.
A socióloga Elenice Monteiro comenta que algumas abordagens
identificam que o que está ocorrendo não é um novo paradigma, dominante,
totalizador, mas um leque de possibilidades aberto pela crise do modelo
taylorista.
Essa "não implicaria necessariamente um novo paradigma homogêneo
e unificado (inclusive porque há dúvidas se o taylorismo chegou a ter
essa dimensão). O que parece caracterizar a situação atual é, sobretudo,
a diversidade de experiências, a variedade de trajetórias seguidas segundo
os ramos, as empresas e os países. Se é que existiu, a homogeneidade
ficou no passado. (in Elenice Monteiro, ibidem, pg 46).
Helena Hirata, socióloga, do Institut de Recherche sur les Societés
Contemporaines de Paris, considera que as qualificações exigidas no
interior desse "novo modelo produtivo", representado pelo
modelo empresarial japonês, contrastam fortemente com aquelas relacionadas
com a lógica taylorista de remuneração, de definição de postos de trabalho
e de competências: trata-se da capacidade de pensar, de decidir, de
ter iniciativa e responsabilidade, de fabricar e consertar, de administrar
a produção e a qualidade a partir da linha, isto é, ser simultamentamente
operário de produção e de manutenção, inspetor de qualidade e engenheiro.
(Hirata, pg 126). O novo conceito de produção exigiria, assim, uma massa
de conhecimentos e atitudes bastante diferentes das qualificações formais
requeridas pelas organizações do trabalho de tipo taylorista e mais
próximas daquelas requeridas pela empresa japonesa. (ibidem pg 127).
A atualidade do debate sobre a empresa japonesa é, provavelmente, um
dos fatores explicativos da importância adquirida na evolução recente
do debate sobre a qualificação, pela questão do seu nível de formação
versus componentes "organizados" (Hirata cita expressão de
M. Aoki, 1991;12 e seg) e explícitos: educação escolar, formação técnica,
educação profissional. Um enfoque de postos de trabalho e por alocação
do indivíduo ao posto daria ênfase aos últimos; um enfoque por equipes
de trabalho e responsabilização coletiva na execução do trabalho tenderia
a enfatizar os primeiros. Ademais, a "qualificação tácita"
ou social ou informal é amplamente solicitada para a implantação de
novas tecnologias. (Hirata, pg 128).
Hirata conclui que "a tese da requalificação dos operadores com
a adoção de novas condições de produção vai conduzir - dentro da sociologia
das qualificações - a uma superação do paradigma da polarização das
qualificações, dominante desde o fim dos anos setenta, e à emergência
do modelo das competências". (ibidem pg 128) "Diferentemente
da noção multidimensional de qualificação, o modelo da competência corresponderia
a um novo modelo pós-taylorista de organização do trabalho e de gestão
da produção. Sua gênese estaria associada à crise da noção de postos
de trabalho e a um certo modelo de classificação e relações profissionais."
(ibidem pg 128).
Finalmente, constata que "a adoção do modelo da competência implica
um compromisso pós-taylorista, sendo difícil de pôr em prática se não
se verificam soluções (negociadas) a toda uma série de problemas, sobretudo
o de um desenvolvimento não remunerado das competências dos trabalhadores
na base da hierarquia, trabalhadores esses levados no novo modelo de
organização do trabalho a uma participação na gestão da produção, a
um trabalho em equipe e a um envolvimento maior nas estratégias de competitividade
da empresa, sem ter necessariamente uma compensação em termos salarial"
(ibidem pg 129).
Defasagem do Sistema Educacional
Em conseqüência das crescentes necessidades empresariais em certos
ramos da economia que tiveram maior impacto das novas tecnologias, como
o eletro-eletrônico, e a incapacidade do sistema educacional de suprir
essas carências, muitas empresas assumiram a iniciativa da formação
de seus próprios empregados dentro dos novos princípios das competências.
Foi o que ocorreu, por exemplo, na empresa norte-americana Motorola.
A empresa, sentindo o despreparo de seus empregados para os novos níveis
de competências requeridos, resolveu investir na reciclagem e reconversão
maciça de seus empregados, chegando até a solicitar mudanças curriculares
ao sistema regular de ensino. As novas condições de trabalho impostas
pela revolução tecnológica e a nova organização do trabalho pediam uma
completa revisão nos currículos do ensino básico. As novas tarefas se
caracterizavam por uma necessidade de maior flexibilidade de raciocínio,
capacidade de iniciativa própria e resolução de problemas.
Assim, a vertente empresarial do conceito de certificação de competências
foi se impondo com a necessidade de vencer a concorrência internacional
e a adoção de padrões e normas de desempenho de alta competitividade.
As novas condições foram decisivas e exerceram forte influência nas
demais vertentes, tanto a educacional como a governamental.
