Sochaczewski, S. (coord.); Lúcio, C.
Ganz; Oliveira, S. M. de; Gebrim, V. L. Mattar
Diálogo social, negociação coletiva e formação
profissional no Brasil
Montevideo: Cinterfor, 2000.
75 p. (Aportes para el Diálogo Social y la Formación, 3)
ISBN 92-9088-111-9
US$ 8.00
INTRODUÇÃO
Desde o início é preciso ser claro: diálogo social multipartite é fenômeno
que se inicia na década de 90 no Brasil e que, apesar dos avanços expressivos
em muitas áreas, é algo muito restrito, se considerarmos o que seria
necessário para consolidar um novo tipo de prática democrática. Há,
ainda, uma concepção autoritária que perpassa a cultura política do
país que se tem procurado superar nesses últimos vinte anos de lutas
democráticas.
Também, o que orienta o atual sistema de relações de trabalho no Brasil
não é diferente, ou seja, não se funda em um diálogo social como, por
exemplo, o experimentado na Europa do pós-guerra. Em sua origem, na
década de 40, em seus fundamentos não se buscou um arranjo institucional
que fortalecesse as relações diretas entre capital e trabalho, nem que
favorecesse a contratação coletiva ou a intervenção em políticas públicas.
Pelo contrário, o sistema de relações de trabalho e, com isso, o papel
dos sindicatos foi estruturado e desenvolvido com vistas a permitir
total liberdade aos empresários e aos governos para implantar seu modelo
de crescimento e uma visão própria de desenvolvimento.
Este sistema restringiu e conformou os limites da atuação sindical,
deixando o capital livre para promover sua reprodução e acumulação.
A restrição aos direitos de greve, o impedimento da organização no local
de trabalho, o controle sindical pelo Estado e o papel normativo da
justiça do trabalho são alguns dos fatores que contribuíram para o sucesso
desse modelo de controle da prática sindical.
Apesar das mudanças ocorridas com a Constituição de 1988, que representaram
avanços na consolidação constitucional de direitos conquistados nas
lutas na década de 80, elementos essenciais do modelo anterior continuam
presentes na legislação e na cultura das relações de trabalho.
Por sua vez, o desemprego cumpriu, em vários momentos e, ainda, cumpre
hoje, uma parte importante da tarefa de manter esses limites. Na última
década, quando os avanços obtidos em 1988 poderiam ser desdobrados para
as diferentes esferas da vida social, as altas taxas de inflação, a
recessão e o desemprego levaram mais uma vez o movimento dos trabalhadores
para a defensiva.
Para se ter uma idéia desse fenômeno, nesse período a taxa média anual
de desemprego saiu de 12,5 em 1985 para 19,3 em 1999 (PED DIEESE/SEADE
SP), subindo de patamar. A luta sindical que até meados de 90
se concentrou na defesa do poder aquisitivo dos salários contra taxas
de inflação que beiravam a hiperinflação, nos últimos cinco anos tem
tido o desemprego e seus impactos sobre a vida dos trabalhadores e a
organização sindical como prioridade absoluta. Entretanto, nestas circunstâncias,
a capacidade de ação fica debilitada pelo medo da perda do emprego.
É preciso lembrar que, na década de 90, ocorre uma mudança importante
na forma como os governos passam a realizar a gestão de algumas políticas
públicas, entre elas a de formação profissional.
O que não é gratuito, haja vista a luta dos diferentes movimentos sociais,
também o sindical, reivindicando participar na formulação e gestão de
políticas públicas. Como exemplo, vale registrar o Movimento Popular
de Saúde que conquistou os Conselhos de Saúde; as lutas no campo da
educação realizadas por inúmeros movimentos onde se destacam os Conselhos
de Educação; a luta pela reforma agrária sustentada pelo Movimento dos
Trabalhadores Sem Terra, entre tantos outros.
Vários fóruns tri ou multipartite foram criados, em geral por iniciativa
dos poderes executivos municipal, estadual ou federal. A representação
dos trabalhadores em organismos públicos se amplia nos últimos anos.
A área da formação profissional foi objeto de uma das mudanças mais
significativas, em especial em sua forma de gestão, devido à importância
que a questão do desemprego adquire na década de 90. Nunca no Brasil,
trabalhadores, empresários, governos, políticos, pesquisadores, imprensa,
profissionais liberais e demais formadores de opinião falaram tanto
sobre a preparação para o trabalho e suas relações com o desenvolvimento
do país.
O conteúdo da formação profissional está sendo revisto. Sua eficácia
e sua eficiência são discutidas, suas relações com outras formas de
conhecimento são reavaliadas e seus objetivos são colocados em xeque.
Atores sociais disputam diferentes visões e projetos para a formação
profissional; negociam formas e processos e abrem novos espaços de ação,
tanto na relação direta entre capital e trabalho, como destes com o
Estado e a sociedade. Enfim, seja do ponto de vista técnico, cultural,
político ou econômico, a educação está hoje na agenda da sociedade brasileira,
com uma atenção especial para a educação para o trabalho.
Se, no momento, há um grande consenso quanto ao valor estratégico da
educação para as pessoas e para o desenvolvimento social, os atores
sociais apresentam diferentes alternativas, muitas vezes conflitantes,
embora os reais interesses que os movem nem sempre fiquem explícitos.
Essa realidade influencia os espaços de diálogo social que surgem, tornando
a prática da negociação neles presente um desafio em si, dadas as características
próprias desses espaços no Brasil de nossos dias.
A expressão prática dessa mudança no campo da formação profissional
significou, em primeiro lugar, que novos atores passam a implantar programas
de qualificação profissional e também, que o modelo de financiamento
sofreu alterações ainda que a institucionalidade que sustenta o sistema
de formação profissional tenha sido alterada; papéis e projetos institucionais
foram avaliados e alterados; a negociação da formação profissional avançou
mais em espaços institucionais multipartites. Entretanto, essas mudanças
atingem especialmente as políticas destinadas a trabalhadores desempregados
ou em situação de risco de perda do emprego. A gestão do ensino técnico
que trata da formação dos jovens no nível médio ou universitário em
quase nada se alterou. O mesmo se pode afirmar da relação direta entre
capital e trabalho. A formação dos trabalhadores empregados continua
sendo prerrogativa da empresa ou das organizações por ela controlada.
Não há, com raras exceções, contratação coletiva que trate dessa questão.
Estas são as questões que serão analisadas ao longo deste trabalho.
Na verdade, os dois objetos de análise se fundem em um só: diálogo social
e formação profissional. Dois também são os espaços onde esse diálogo
ocorre: os espaços institucionais multipartite e os espaços da relação
capital trabalho.
Optouse por dividir o trabalho em três partes. A primeira irá tratar
da participação institucional tri ou multipartite, iniciando pela contextualização
da educação e da formação profissional, com destaque para a visão dos
atores sociais: trabalhadores e empresários. Em seguida, a análise trata
das políticas públicas de formação profissional no Brasil, que
privilegiam um modelo de diálogo social.
Para finalizar, uma breve apresentação de outros espaços institucionais
que tratam da formação profissional e que seguem o mesmo princípio de
diálogo social. Na segunda parte deste trabalho, o eixo se desloca para
a relação bipartite capital trabalho, o que se tem feito nesse espaço,
com destaque para uma análise das cláusulas dos acordos coletivos que
tratam da formação profissional. Finalmente, uma análise do modelo do
diálogo social vigente e as relações entre negociação da formação profissional
e o sistema de relações de trabalho.
ÍNDICE
INTRODUÇÃO
PARTE
I
1. Educação e formação profissional no Brasil hoje
2. A visão dos atores sociais
2.1 Os empresários
2.2 Os trabalhadores
3. Breve panorama da formação profissional no final dos 90
4. A nova política pública de formação profissional
4.1 Plano Nacional de Formação Profissional - Planfor
5. Outros espaços de participação institucional
PARTE
II
1. O sistema de relações de trabalho no Brasil
2. A negociação da formação profissional na relação capital/trabalho
3. Os acordos coletivos que têm regulado os aspectos sobre formação
profissional no Brasil - 1993-1998
3.1 Cláusulas de incentivo à qualificação
3.2 Estagiários e aprendizes
3.3 Inovações tecnológicas e organizacionais
4. A diversidade de ações e avanços sindicais na negociação da formação
profissional
PARTE
III
1. Formação profissional e sistema de relações de trabalho no Brasil
2. Elementos que caracterizam o diálogo social na experiência brasileira
3. Diálogo social, negociação coletiva e formação profissional no
Brasil
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
ANEXOS
Anexo I
Anexo II
Anexo III
Anexo IV
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